É possível o desenvolvimento a partir da sustentabilidade?

A crise hidro-geoclimática e o desafio de repensar nossos territórios

As imagens se repetem com uma frequência cada vez menor entre um evento e outro.

La Plata (2013)
Porto Alegre (2024)
Valência (2024–2025)

Cidades distintas, contextos diferentes, mas um mesmo pano de fundo: a intensificação de eventos extremos associados às mudanças climáticas e, sobretudo, à forma como estruturamos nossos territórios.

A chamada crise hidro-geoclimática não pode mais ser interpretada como um conjunto de tragédias isoladas. Ela é o resultado acumulado de décadas de modelos de desenvolvimento baseados em crescimento desordenado, impermeabilização excessiva do solo, ocupação de áreas vulneráveis, supressão de ecossistemas estratégicos e políticas públicas fragmentadas. O que hoje classificamos como “evento extremo” é, em grande medida, a manifestação de escolhas estruturais feitas ao longo do tempo.

Mitigar já não basta​

Durante muitos anos, a resposta predominante foi a mitigação: conter danos, reconstruir infraestruturas, criar sistemas de alerta e ampliar obras de contenção. Essas medidas são importantes — mas insuficientes.

O desafio contemporâneo vai além da gestão de riscos. Ele exige uma revisão profunda da forma como concebemos o desenvolvimento. Afinal, desenvolvimento para quem? A que custo? Em que tempo? Com quais impactos acumulativos?

Repensar o território implica reconhecer que cidades não são apenas aglomerados de edificações e infraestruturas. São sistemas vivos, interdependentes, que articulam ambiente natural, economia, cultura e organização social. Quando um desses eixos é negligenciado, o desequilíbrio emerge — e a natureza responde.

A raiz do problema: modelo de ocupação e cultura territorial

Grande parte das crises recentes está associada à forma inadequada de produção, uso e ocupação do solo. A impermeabilização intensa reduz a capacidade de absorção da água da chuva. A canalização de rios elimina áreas naturais de amortecimento. A expansão urbana sobre várzeas e encostas amplia a exposição a riscos.

Mas a questão não é apenas técnica. Ela é cultural e política.

Existe uma dissociação histórica entre planejamento urbano e processos ecológicos. Muitas cidades foram concebidas como se estivessem desconectadas dos sistemas naturais que as sustentam. Essa visão fragmentada precisa ser superada.

Desenvolvimento sustentável não pode ser entendido apenas como um conjunto de indicadores ambientais. Ele deve ser compreendido como um novo paradigma civilizatório — que integra planejamento territorial, justiça social, responsabilidade econômica e cultura consciente.

Um novo ciclo de compreensão

Talvez a pergunta central não seja apenas “como crescer?”, mas “como cuidar?”.

Cuidar do território significa reconhecer suas vocações naturais, suas limitações ecológicas e sua identidade cultural. Significa adotar estratégias baseadas na natureza, fortalecer governanças participativas e construir agendas de longo prazo — que transcendam ciclos políticos.

Mais do que obras emergenciais, precisamos de projetos estruturantes. Mais do que respostas reativas, precisamos de visão sistêmica.

A crise hidro-geoclimática nos coloca diante de uma encruzilhada histórica. Ou seguimos ampliando soluções paliativas, ou assumimos a responsabilidade de repensar as bases do desenvolvimento.

É possível falar em desenvolvimento a partir da sustentabilidade?
Sim — mas apenas se estivermos dispostos a redefinir o próprio conceito de desenvolvimento.

Sustentabilidade não é obstáculo ao progresso. É sua condição de possibilidade.
Não se trata de desacelerar por medo, mas de avançar com consciência.

O verdadeiro desafio está em transformar mentalidades, políticas públicas e práticas produtivas. A transição exige novos liderazgos, novas perguntas e novas formas de habitar o mundo.

A pergunta permanece aberta — e urgente:
estamos preparados para esse novo paradigma?